Saúde Indígena no IMIP: uma trajetória de cuidado, interculturalidade e compromisso com os povos originários

Saúde Indígena no IMIP: uma trajetória de cuidado, interculturalidade e compromisso com os povos originários
A história da Saúde Indígena no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP) representa uma das experiências mais abrangentes e duradouras de atenção à saúde dos povos originários no Nordeste brasileiro. Muito além da assistência convencional, trata-se de uma construção coletiva baseada no respeito à diversidade cultural, na valorização dos saberes tradicionais e na defesa do direito constitucional à saúde dos povos indígenas.



Ao longo de mais de uma década, o IMIP consolidou-se como uma das principais instituições parceiras da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), atuando em territórios marcados por desafios geográficos, sociais e epidemiológicos complexos.
A aproximação do IMIP com a temática indígena começou ainda em 2005, quando a instituição participou de ações em parceria com o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), promovendo capacitações, incentivo ao aleitamento materno, vacinação e educação em saúde junto às etnias Tikuna, Xavante e Guarani.
Entretanto, foi em 2011 que a atuação ganhou caráter estruturante, quando o IMIP venceu chamamento público do Ministério da Saúde para executar ações complementares de atenção básica e saneamento ambiental nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) de Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Sergipe. Em 2014, a atuação foi ampliada para Bahia, Ceará e Maranhão, fortalecendo a presença institucional em grande parte do Nordeste.


Atualmente, o IMIP compartilha a responsabilidade pela assistência a cerca de 188 mil indígenas pertencentes a 99 etnias diferentes, distribuídas em mais de 1.300 aldeias localizadas em 124 municípios nordestinos. Essa atuação ocorre em parceria com os DSEIs, Conselhos Distritais de Saúde Indígena (CONDISIs) e Conselhos Locais de Saúde Indígena, fortalecendo o controle social e a participação das próprias comunidades na definição das políticas e ações de saúde.
Um dos diferenciais da experiência do IMIP é a valorização do protagonismo indígena na assistência. Ao longo dos anos, mais de três mil profissionais foram contratados para atuar nos territórios, sendo aproximadamente 78% indígenas. Essa escolha vai além da inclusão laboral: representa o reconhecimento dos conhecimentos tradicionais e da importância da mediação cultural para uma atenção em saúde verdadeiramente intercultural. Ao integrar agentes indígenas, lideranças comunitárias, pajés, parteiras e rezadeiras às estratégias de cuidado, o IMIP contribui para uma assistência mais humanizada e culturalmente adequada.


Outro eixo fundamental dessa trajetória é a produção de conhecimento. A pesquisa “Saúde e Qualidade de Vida dos Povos Indígenas”, desenvolvida entre 2015 e 2017, buscou compreender as condições de vida, saúde e vulnerabilidade das populações indígenas do Nordeste, produzindo informações estratégicas para qualificar as políticas públicas e orientar intervenções mais efetivas. O estudo representou um marco importante ao evidenciar a necessidade de abordagens que considerem simultaneamente fatores biológicos, sociais, culturais e territoriais na compreensão dos processos de adoecimento.
A atuação do IMIP também se destaca na prevenção de agravos e promoção da saúde. Um exemplo foi o Programa de Prevenção e Redução de Danos ao Consumo de Álcool e Outras Drogas entre Povos Indígenas de Pernambuco. Desenvolvido junto às etnias Xucuru, Pankararu, Truká e Atikum, o programa promoveu capacitações envolvendo profissionais de saúde, educadores, lideranças e jovens indígenas. A iniciativa abordou temas como redução de danos, sexualidade, violência, direitos humanos e fortalecimento comunitário, sempre respeitando as especificidades culturais de cada povo.
Durante a pandemia da Covid-19, o IMIP precisou adaptar rapidamente suas estratégias de atuação. Foram realizadas ações de testagem, distribuição de equipamentos de proteção individual, kits de higiene e alimentação, além de campanhas de vacinação e orientação às comunidades. O contexto reforçou a importância da presença permanente das equipes nos territórios e evidenciou as desigualdades históricas que tornam os povos indígenas mais vulneráveis diante de emergências sanitárias.
A expertise acumulada pela instituição ganhou reconhecimento nacional em 2023, durante a crise humanitária vivenciada pelo povo Yanomami. A convite do Ministério da Saúde, profissionais do IMIP participaram da capacitação para produção artesanal da fórmula nutricional F-100, utilizada no tratamento de crianças com desnutrição grave. A ação integrou o conjunto de estratégias emergenciais implementadas pelo Governo Federal para enfrentar a grave situação de insegurança alimentar e adoecimento identificada no território Yanomami. O trabalho desenvolvido pelo IMIP foi publicamente reconhecido pela então ministra da Saúde, Nísia Trindade, como uma contribuição fundamental para a recuperação nutricional das crianças atendidas.
Nos últimos anos, a Saúde Indígena também passou a ocupar espaço crescente nas agendas de ensino, pesquisa e inovação da instituição. Entre as iniciativas em desenvolvimento estão projetos voltados à redução das iniquidades no câncer entre mulheres e crianças indígenas, pesquisas sobre condições de trabalho no Subsistema de Saúde Indígena e ações voltadas à segurança alimentar e fortalecimento de práticas alimentares ancestrais. Essas iniciativas reforçam uma compreensão ampliada da saúde, que ultrapassa o tratamento das doenças e incorpora dimensões relacionadas ao território, à cultura, à alimentação, à educação e aos direitos sociais.
Ao celebrar mais de uma década de atuação na área, o IMIP reafirma um compromisso que dialoga diretamente com sua missão institucional: cuidar, ensinar e transformar vidas. A experiência acumulada demonstra que a saúde indígena exige muito mais do que a oferta de serviços. Exige escuta, diálogo intercultural, respeito às identidades coletivas e reconhecimento dos saberes tradicionais como componentes legítimos do cuidado. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e históricas, a trajetória da Saúde Indígena no IMIP constitui um exemplo de construção compartilhada de políticas públicas capazes de promover cidadania, equidade e dignidade para os povos originários do Nordeste brasileiro.

Confira abaixo as ações da Saúde Indígena do IMIP:


